
Enjoy
A banda Enjoy vem conquistando o público da cena alternativa com uma sonoridade que resgata tendências musicais dos anos 80 como o technopop e a darkwave. Em parceria com a Casa Cultural Matriz, o grupo realiza o evento "Get the balance right!", que acontece mensalmente em uma sexta-feira.
Leia a seguir a entrevista com o trio.
Comecemos com um pouco do início da banda, sua história.
BINHO - Sempre estive presente, mesmo não sendo um membro da banda, ajudava na parte técnica e, claro, dava alguns palpites.
MARCOS - A banda começou como um projeto de duas pessoas que buscavam uma interação da música eletrônica com a guitarra. Os estilos distintos dos dois integrantes criaram muitas situações híbridas a princípio, mas que foram sendo trabalhadas e desenvolvidas para o atual estilo da banda. A medida que isso foi evoluindo, percebemos a combinação dos estilos e percorremos os precursores dessa interação, ou seja, o techo-pop e o electro rock da decada de 80.
STEFANO - Eu me mudei pra BH em janeiro de 2000. Passados 6 meses, conheci o Marcos na faculdade e tivemos a idéia de montar uma banda onde os teclados e guitarras seriam privilegiados. Muitas coisas mudaram desde lá, mas a essência permaneceu.
A banda faz um som que segue as tendências dos anos 80. O que vocês pensam do retorno que estamos presenciando dessa cultura musical?
BINHO - 80 foi uma década muito rica musicalmente na minha opinião e sou totalmente influenciado por bandas dessa década e talvez essa seja a razão da banda ter uma “queda” por 80. O retorno esta sendo muito bom ainda mais que estamos em um revival 80 e isso está ajudando também.
MARCOS - A década de 80 foi uma fase obscura para vários estilos musicais. Na época, o exagero tomou conta e banalizou algumas estruturas que foram mal vistas na década de 90. Com isso veio a destruição de todo esse exagero e a própria alienação de muitas bandas e estilos. Acredito que hoje em dia as pessoas estão começando a entender o que a década de 80 propunha. E perceberam as qualidades, ao contrário do exagero proporcionado pelos cliches da época.
STEFANO - Nosso som não segue uma tendência. Ele foi, e é ainda, muito influenciado por bandas dos anos 80 e de muitos outros estilos. Os anos 80 são grande parte da minha formação. O que está acontecendo agora é um revival 80 e, com isso, muitas coisas vêm a tona e muitos oportunistas aparecem do nada. Eventos de péssima qualidade e com o pior dos anos 80 é o que não falta. Nós tocamos alguns covers nos nossos shows até porque ficou caracterizado e o público gosta, mas não somos uma banda cover e essa nunca foi a idéia. Em 2001, quando começamos a tocar algumas músicas que marcaram os anos 80 como Sweet Dreams, muitos acharam a idéia ruim porque era “brega”. Hoje em dia esses mesmos pensam diferente.
Como vocês caracterizariam o som dos anos 80?
E por que a preferência por esse gênero?
BINHO - Eu acho que os anos 80 foram muito inovadores, minha preferência pelo estilo vem da influência musical do meu pai e tio, isso desde criança.
MARCOS - Não acredito em preferência do gênero por minha parte, mas acredito na solidez dos músicos da década e procuro me inspirar no estilo deles para conseguir produzir músicas contemporâneas. A década de 80 foi uma fase que conseguiu colocar "a cara a tapa" sem se sentir ofendida em ouvir reclamações. A década de 90 tentou destruir tudo isso, mas acabou destruindo a si mesma. Tornou-se um momento de extremo pudor musical. É claro que existiram excelentes momentos, trato disso como um conceito generalizado. Nós tentamos ser um pouco disso e no final das contas, eu diria que estávamos cansados de ouvir a mesma coisa e saber que existia muita música boa escondida no underground e nos anos 80.
STEFANO - Como disse na resposta anteiror, o som 80 fez parte da minha formação musical e pessoal, estava totalmente ligado e influenciado por isso por todos a minha volta. Eu diria que 80 foi a década que mais inovou em muitos aspectos. É claro que a chegada do video clip ajudou, mas a ideia de ligar o visual ao som começou a ficar forte ali. É só reparar em Duran Duran, Depeche Mode e até mesmo Madona no começo da carreira. O mesmo aconteceu com o som, a tecnologia se incorporou, teclados e sintetizadores vieram com força total. Não que não fossem usados antes, mas surgiu a musica feita só com aquilo o que foi muito interessante e inovador.
Por que a tentativa, por parte da banda, de resgatar essa tendência musical?
BINHO - Não era idéia da banda tocar covers, mas nossas músicas tem um pouco da tendência oitentista, não que isso seja um resgate.
MARCOS - Toda banda precisa de base para conseguir alcançar um estilo próprio. Para nós, a música de década de 90 não proporcionou tanta abertura como a década de 80. A homenagem que fazemos para essas bandas trata-se de um salto para as pessoas conhecerem nossas próprias músicas e veio por um acaso.
STEFANO - Na verdade, quando tivemos a idéia de montar a banda não queríamos tocar covers. Isso veio com o tempo. Nos ensaios, quando estavámos compondo, sempre rolava um cover ou outro. A ideia não era resgatar, esse não foi um proposito da banda, mas quando você escuta nossas musicas percebe facilmente a influência da atmosfera technopop.
A Matriz tem dado espaço para os shows do Enjoy e os projetos relacionados ao som dos anos 80. O que vocês diriam sobre o papel da Casa e a resposta do público? E sobre as casas de show em geral?
BINHO - O Matriz sempre deu espaço para nós. É uma casa que investe em projetos e bandas que estão começando e eu, com a ajuda do Stefano e outros djs, tenho um projeto que acontece todas as quintas-feiras voltado para o technopop anos 80, chamado Get The Balance Rigth!
MARCOS - O Matriz é uma casa disposta a investir em projetos. Sem ela não haveria como divulgar o nosso trabalho com tanta precisão. As casas de show em geral estão interessadas se você vai gerar grana ou não. O Matriz difere de todas as outras pela fidelidade dos que vão e pelas intenções dos donos.
STEFANO - A resposta do público sempre foi ótima desde os primeiros shows. O Matriz, todos sabem, é uma casa cultuada em BH por todos que estão envolvidos com música, djs, bandas, etc. No nosso caso devemos muito ao Matriz, foi onde aconteceu nosso primeiro show de verdade. O Edmundo está sempre ligado nas tendencias e está promovendo festas voltadas ao technopop o que é muito bom.
Citem uma lista dos albuns, livros e filmes que mais influenciaram os membros do Enjoy. Qual a dica cultural de vocês?
BINHO: Em minha lista de cantores e bandas não pode faltar: Roy Orbison, OMD, Depeche Mode, Kraftwerk, Roxy Music, The Smiths etc... Literatura: A Bíblia Sagrada (risos). Cinema: Historia sem fim e O Senhor dos Anéis.MARCOS: In The Woods - Heart of the Ages, Bogus Blimp - Men Mic, Fleurety n/02, Mephisto - John Blanville, Salo - 120 dias de Sodoma - Pasolini
STEFANO - Violator (DM), Avalon (Roxy Music), Trans Europe Express (Kraftwerk), Skylarking (XTC), Vienna (Ultravox), Garlands , Treasure, Head Over Heels e Victorialands (Cocteau Twins), Democracy (Killing Joke), Substance (New Order), Behaviour (Pet Shop Boys), Twist of Shadows (Clan of Xymox), Peel Sessions (XMAL Deutschland) Organizator (OMD), Pandemonium e Democracy (Killing Joke). Esses albums estiveram diretamente ligados a mim e até hoje são muito marcantes, mas há muita coisa que me influenciou por causa de pessoas diretamente ligadas a mim. David Bowie e o próprio Depeche Mode é uma coisa que conheço e gosto muito por causa dessas pessoas. Depois que vim pra BH passei a conhecer alguns sons mais pesadas, e não há como dizer que isso não influi nas nossas composições.
Sempre fui fascinado por mitologia, li e ainda leio muito HQ. Vou citar alguns: História Sem Fim, do Michael Ende – Tolkien eu gosto de tudo – Jhon Banville, ele escreveu entre outros um Mephisto – Edgar Alan Poe – Nieztsche – William Blake - Lautreamont, os Contos do Maldoror são muito legais. Gosto de mar, por isso gosto dos contos de piratas de Conan Doyle. HQ's: Screamer é muito bom, V de Vingança (V For Vendetta, no original) do Alan Moore é um dos meus preferidos. Moonshadow é muito bonito. A saga toda do Conan e Sandman.
Alguns filmes me marcaram pela trilha sonora, como Labirinto, que tem a música do Bowie - As the world falls down. Historia Sem Fim, baseado no livro do Michael Ende e com a trilha de Giorgio Moroder. Blade Runner foi um marco. Lembro que era bem novo quando assisti aquilo com meu pai e ainda tem a trilha do Vangelis que ficou muito famosa. Gosto muito de Conan, pra mim um épico, e a adaptação de Entrevista com Vampiro. Gosto de alguns filmes simples tbm como o filme australiano "O Casamento de Muriel", Matrix, e O Senhor dos Anéis, que é uma adaptação muito legal.
A dica cultural que eu daria, se é que posso fazer isso aqui, é não se fechar por estilos. Gosto muito das músicas rotuladas de gótico, dark, industrial, EBM, mas não tem como deixar de lado Beatles, David Bowie, Elton Jhon, Roy Orbison.. Se vc quer fazer musica tem que ouvir de tudo.
Como anda o cenário de Belo Horizonte em relação a shows e eventos? E na cena nacional, que bandas vocês destacam?
BINHO - Belo Horizonte é realmente carente de eventos bons, com bandas grandes. No final do ano que passou e no começo desse, mudou um pouco com a vinda de bandas de outros países para BH. Nos outros estados como São Paulo e Rio de Janeiro, acontece um número maior de bons eventos. Banda de destaque na minha opinião seria a Indutrya, de SP.
MARCOS - Belo Horizonte é uma cidade carente de bons eventos, isso quando comparada a outras metrópoles nacionais como São Paulo e Rio de Janeiro. O Brasil possui um excelente cenário underground com estilos variados. Mas para o electro rock ainda é completamente carente em bandas e oportunidades.
STEFANO - A cena, pelo menos no nosso estilo, é muito pequena, mas fiel. BH agora está bem melhor, tem gente ralando pra trazer bandas mais underground e classicos do metal. Nós entramos nessa e colabroramos para trazer agora o Moonspell, banda adorada por góticos e metaleiros e todo tipo de público. O que ficou provado com isso é que é só correr atrás que dá pra fazer muita coisa ao invés de reclamar que nada acontece aqui. Eu não sei muito bem o que dizer a respeito de bandas nacionais, tem muita banda legal procurando um espaço. O Elegia do interior de São Paulo conseguiu grande destaque aqui e em outros países. Tem também outra banda de São Paulo, capital, baseada em samplers e batidas eletronicas muito interessante que se chama Industrya. Além disso há vários djs, bandas de um homem só, que fazem um excelente trabalho, como é o caso de um conhecido nosso do Rio de Janeiro, Harlem Pinheiro. Um de seus projetos que mais me agrada se chama Alienaqtor. Mesmo com o grande avanço da internet e MP3 ainda não conseguimos fazer com que essas bandas e projetos apareçam realmente, mas estamos lutando para melhorar isso ainda mais.
Em relação ao futuro da banda. O que vocês nos dizem sobre shows, discos e eventos?
BINHO - Vamos abrir o show do Moonspell aqui em BH dia 21 de Maio, e o cd está na reta final, logo logo lançaremos.
MARCOS - Abriremos para o show do Moonspell dia 21 de maio, e esse será um evento muito importante. O primeiro CD da banda, "Circus of Woe", deverá ser lancado no segundo semestre. E sobre o futuro da banda eu não sei dizer. Aposto muito no nosso trabalho e espero que dê tudo certo.
STEFANO - Nós estamos com vários shows marcados, um deles merece destaque, que é a abertura do show do Moonspell em BH. Além disso não vamos parar de tocar em boites e casas noturnas. Nosso som permite isso. Podemos tocar em vários tipos de lugares e aproveitamos isso ao máximo. Há shows a serem confirmados no interior de Minas e em outros estados do Brasil. Quanto ao disco estamos praticamente no pré-lançamento do nosso primeiro álbum. Este terá 10 ou 11 músicas. Além disso, já temos músicas novas o suficiente para lançar outro disco, aos poucos estamos inserindo estas nos shows.
Além do Enjoy, os membros da banda têm outros projetos musicais e culturais?
BINHO - Como já mencionei eu tenho um projeto que se chama “Get The Balance Right!” que rola toda quinta no Matriz, é um projeto bem voltado aos anos 80 sempre com a presença de um dj convidado.
MARCOS - Eu tenho me dedicado única e exclusivamente ao Enjoy e ao trabalho de designer.
STEFANO - Eu ajudo o Binho com a festa de quinta, Get The Balance Right!. Temos um outro projeto com o produtor, Alexandre Marques, deste nosso primeiro disco, mas nada concreto ainda. Estou me concentrando mais no ENJOY mesmo, além da minha profissão de Designer Gráfico.
Vamos terminando, agradecendo à banda pelo tempo cedido. O espaço é de vocês. Estejam à vontade!
BINHO - Agradeço o Matriz e a todos que gostam da banda e do Get The Balance Rigth! Valeu!!!!
MARCOS - Finalmente surge a oportunidade de interagir música eletrônica e acústica com uma qualidade sonora incomparável a décadas passadas. A proposta do Enjoy é contar uma versão de tudo isso. Nao percam a oportunidade de experimentar! Divirtam-se e não levem as coisa muito a sério! Cansa demais! Valeu, Edmundo e Andréa! Um abraço pra familia Matriz!
STEFANO - Agradeço ao Matriz mais uma vez por tudo e por mais este espaço!
Entrevista: Marcel Margal e Rogério Marcus