
Pensando a Morte do Bezerra
oda arte é comunicação (de idéias, de sentidos etc). Estamos, creio, de acordo nisso, e também creio concordarmos que a razão de uma comunicação de fato, e não i$$o que aí está, deve ser a de, primeiro, provocar reflexão; depois, uma discussão e, por fim, quem sabe, dar um 'sacode' no estabelecido. Terminados os acordos, um cigarro, um pigarro e a sua licença pra eu dizer umas coisas.
Para mim, sem demérito da pintura, da dança e de qualquer arte que dispense a palavra, qualquer transformação se dá, antes, pela palavra. Como o uso desta pelo phoder sempre significou a transformação do que está muito ruim em algo ainda pior, sou levado a crer que qualquer transformação em benefício da espécie só pode se dar - "evoé!" - pelos verbos da ARTE, a única forma de Vida capaz de, pela informação, pela beleza, pelo humor e, acima de tudo, pela verdade, despertar o bando para um sempre necessário grito de Foda-se!, de modo a, com esse berro redentor, quebrar um preconceito aqui, um tabu ali, acabar com a fuzarca de um $afardana acolá, dar o tal 'sacode' no estabelecido, enfim.
Teatro, como já disse o sábio Augusto Boal "é a vida como ela deveria ser ", mas, por razões que sendo tantas fica difícil a discussão neste espaço, é um meio que para uma imensa maioria do bando parece ainda falar numa de suas línguas de origem: o grego... E é aí que mora não a importância (que importante toda arte é), mas a eficiência de um músico como o saudoso Bezerra da Silva, morto, aos 77 anos, em 17.01.2005, no Rio de Janeiro.
Pra maior parte dos que têm o privilégio de comer 3 vezes ao dia, estudar, ter acesso a lazer e cuidar da sáude sem piorá-la ainda mais em filas quilométricas, que nunca tomaram uma dura por não corresponderem a um modelo de pobre - simplório, servil, risonho e não raro "exótico" - que a tv, via novelas, determinou como único, Bezerra pode parecer apenas pura diversão, porque estereotipado por uma mídia cretina, que definiu sua música como sambandido e referia-se a ele como malandro com ironia, que já é pro cara não ser levado a sério. Não?
Malandro é o cara que sai com 15 anos de Recife, se esconde a bordo de um navio com destino ao Rio, e, descoberto por um tripulante que ameaça atirá-lo ao mar, o convence a deixá-lo fazer o seu serviço em troca de um prato de comida e do direito de seguir viagem. Malandro é o moleque que já chegado no Rio, ao invés de pedir esmola no asfalto, sobe o morro e pede ajuda em forma de trabalho aos pobres. Malandro é o cara que trabalhou no pesado durante sete anos e nunca abandonou o sonho de ser músico profissional, que se realizou em 1.950, a partir de um convite para integrar, como ritmista, a orquestra da Rádio Clube do Brasil . 10 anos depois, integrou a orquestra da gravadora Copacabana Discos , na qual, em 1.969, gravou seu primeiro compacto e, seis anos depois, devido ao sucesso de suas músicas na série de discos chamada Partido Alto Nota 10 , gravou o 1º de seus 28 discos.
Malandro é o cara que não se esquece de sua origem, a pobreza, e decide dar voz (gravando as canções escritas pelas gentes das favelas, às quais ele nunca negou reconhecimento, dizendo-se sempre apenas o intérprete das suas canções ) e dignidade à rapaziada que nunca teve vez, aumentando-lhe a auto-estima, conscientizando-a de seu valor, ou mesmo baixando o sarrafo nos vagabundos e vacilões dos morros, que só faziam/fazem reforçar os preconceitos propagados por $inhá mídia, e sempre com interpretações precisas do humor ou da crítica das letras, às quais, com seu incrível poder de síntese e de comunicação, acrescia gírias e idéias que falavam às gente s de todas as idades, de todas as classes sociais (quem quis, ouviu - e 'ouvir' não é escutar), não só aos marginalizados, aos segregados e excluídos que, em termos sociais, étnicos e humanos, nenhum outro artista, durante toda a sua carreira, tanto e tão bem representou, conferindo-lhes aquilo que é bom e todo mundo gosta: respeito. Malandro mesmo é esse que sabe instigar a rapaziada a gritar o Foda-se!, e depois dar um 'sacode' (inclusive com o quadril) no estabelecido, mas sem machucar ninguém e ainda levantando um punhado de gente. Salve, salve!
No rap, hoje, há artistas com o mesmo prestígio popular alcançado por Bezerra - que, a propósito, é ídolo, também, de rappers, grafiteiros e b-boys, que tiram os gorros, bonés e boinas à simples menção de seu nome, mas, sinal dos tempos, cujos versos têm que se referir não mais a malandros, mas a vagabundos de todas classes, não mais às pendengas resolvidas na mão, na bolacha, mas às tretas encerradas no dedo, a tiros.
Bezerra morto, apaga-se um ponto de referência à resistência, à sabedoria e ao humor, essas "coisinhas" que ele teve de sobra e que inspiraram um outro sábio (citado por Mano Brown em uma de suas canções) a dizer: " malandragem de verdade é viver ". Precisa dizer mais?
Abaixo, uma bronca do mestre numa de suas últimas entrevistas, dada á TV Bandeirantes:
- Se você cantar Garota de Ipanema e perguntar de quem é a letra, todo
mundo vai dizer Vinícius de Moraes. Eu tenho cantado Malandragem Dá Um Tempo há mais de 20 anos, é uma música que todo mundo sabe a letra, mas, se você perguntar quem é o autor, quase ninguém sabe dizer. Não é curioso? Você me pergunta de quem eu acho que é a culpa. Bem, minha não é e nem é do público. Não me leve a mal, mas quem é que falta na lista de suspeitos ?Em tempo, a letra é de Adelzonilton e a música, de Moacyr Bombeiro .
Pirata Z é zineiro, escritor e dejota.
imeio: diariopz@uaivip.com.br
blogue: www.pirataz.blog-se.com.br