
Contra-ataque: um quadrinho de briga
"10 milhões de hectares desmatados por ano,
300 tribos em extinção, trabalho escravo,
multinacionais. Amazônia: até quando?"
Com esta chamada de capa, a equipe da revista Contra-ataque, publicada pela editora Vega no final da década de 70, tomava parte no trabalho que o núcleo mineiro de defesa da Amazônia vinha desenvolvendo em conjunto com outras entidades para conscientizar a população dos problemas que se agravavam - e se agravam - na região. Uma política de ocupação e exploração da Amazônia moldada de acordo com os interesses das grandes empresas nacionais e estrangeiras. A implantação de projetos que não refletem a razão, mas a demanda de lucro. Rodovia transamazônica. Procedimentos antiecológicos e degradação do ser humano. Este é o quadro retratado por Contra-Ataque em HQs que merecem ser lembradas não apenas pelo seu caráter de denúncia, mas também pela forma inteligente e sensível como esta foi feita. De fato, nesta Contra-ataque, que em outras edições aborda questões como o jogo especulativo por trás da inflação, fez-se mais que simplesmente ilustrar a denúncia, fez-se quadrinho. Uma iniciativa que devemos resgatar ao esquecimento.
A edição é composta por quatro histórias que interagem debatendo a problemática da Amazônia em seus diversos aspectos. Elvira, HQ do quadrinista Melado desenvolvida sobre pesquisa de Marília, se desenrola em torno do paralelo estabelecido entre a floresta e uma mãe que espera seu filho nascer, esta consumida pela febre e aquela pelas chamas. A história, protagonizada pela tartaruga Elvira, coloca o problema em seu aspecto ecológico e culmina na trágica interrupção da vida gerada no ventre da Amazônia.
Em Os índios, que tem roteiro e desenhos de Wagner de Andrade, nos deparamos com a questão indígena. Concebida a partir de fatos reais, descreve a cultura das tribos da Amazônia e sua destruição no processo de "colonização" da região. São imagens de violência brutal que atingem níveis inacreditáveis de perversidade na cena que descreve o assassinato do curumim Pixundé (personagem fictício), arrancado aos braços da mãe e jogado para cima enquanto uma faca era colocada no percurso de sua queda. Este trecho, por exemplo, se baseou no livro Nossos índios, nossos mortos de Edilson Martins. Outras formas de extermínio dos índios são denunciadas, tais como o contágio por doenças fatais através de roupas infectadas e o envenenamento de comida.
O foco da denúncia se volta para o conflito entre posseiros e grileiros na HQ Onde está a terra?, roteiro de Hamilton e Marília e desenhos de Augusto. Aqui, a figura do pequeno agricultor que se vê forçado a abandonar as terras por ele trabalhadas em face da violência do latifundiário. O roceiro que narra a história nos fala de injustiça, arbitrariedade, pistoleiros, assassinato e humilhação. "Terra não falta, mas onde está a terra?".
Por fim, Amazônia: até quando?, um roteiro de Lor, Marília e Hamilton que se soma ao cuidadoso desenho de Lor, faz uma leitura geral da situação e nos fornece dados detalhados sobre o que vinha acontecendo na região, a partir dos quais podemos perceber a ação nefasta exercida pelo grande capital na exploração inconseqüente de suas riquezas naturais, riquezas estas que, uma vez obtidas, não viriam a enriquecer - muito pelo contrário - a própria Amazônia ou o povo de nosso país. Nesta HQ veremos a figura do político brasileiro como servo de interesses externos, a propaganda enganosa por parte do governo, o cerceamento econômico da ação da imprensa, o extermínio dos índios, a devastação da floresta, a violência contra posseiros, a impunidade. Até hoje?
resenha: Rogério Marcus
Em tempo:
A editora Nona Arte relançou recentemente uma das edições
da série Contra-Ataque, com a HQ Retrato Falado, sobre a
Ditadura Militar. Os interessados podem visitar o site
www.nonaarte.com.br