
Rock $/A
Bezerrinhos de ouro. É como podemos chamar 90%, ou mais, da molecada rock, pois berram muito e geram um bom tutu para o sistema que supõem contestar em versinhos bem tatibitate - e o que é pior: sob o verniz de modernidade, há um ranço de quase 30 anos...
No início dos anos 1970, boa parte do mundinho pop, só para situar os mais novos, parecia uma versão musical de O Senhor dos Anéis, tão chata quanto, e com direito a seqüências, já que quase todos os conjuntos (que é como as bandas se chamavam então) tinham cantores e músicos usando cabelos, barbas e vestes de Gandalf, cantando histórias de elfos e fadas, ogros e afins, embaladas por melodias grudentas, com solos intermináveis de guitarras e sintetizadores. Pra gostar daquilo, das duas, uma: ou você tinha que ter aço nas gônadas, ou toucinho, ao invés de tutano, na cachola.
Por sorte, um Jorge Ben aqui, um Led Zeppelin ali, um James Brown acolá, um Kraftwerk alhures e mais outros gatos pingados algures impediram o extermínio, pelo tédio, de uma boa parte da espécie. Corta para os EUA, 1976.
Quando o primeiro disco dos Ramones foi lançado, aconteceu, de fato, uma revolução, e não apenas sonora, mas, também, de costumes. Na capa, todos vestiam uma peça de roupa quase que exclusiva do proletariado de então, a calça jeans, e a de Joey, o cantor e mentor da banda, tinha um detalhe que, hoje, já vem de fábrica,
mas, na época, significou muito em termos de quebra de comportamento: um rasgo no joelho. Mas a capa era só, digamos, atitude. A ação, pra valer, estava na bolacha de vinil.O álbum tem 14 faixas distribuídas em pouco menos de trinta minutos! Uma única música do Yes, por exemplo, durava de dez a quinze minutos - e isso porque alguém de siso - ou com dor no dito cujo - devia ameaçar desligar as tomadas, se não parassem...
As letras falam de problemas humanos, comuns a todos para os quais a vida não é um pudim de leite. Foi, pois, um misto de vingança e redenção para todos - entre os quais me incluí, pouco tempo depois, quando a bolacha por aqui chegou - que não tinham o menor interesse em saber das agruras de um duende que perdeu as botinas, calçou besouros azuis, correu o arco-íris e pediu a um bruxo que o ajudasse a convencer os cogumelos cantantes a lhe devolverem os pisantes. Coisas assim eram, via de regra, o leit motiv de todas as canções do rock "progressivo", sempre em metáfora a algo que ninguém se lembrava - ou mesmo sabia - precisamente o quê...
Vê-se, pois, que alguém precisava chamar meio mundo às falas, e foi o que os Ramones fizeram. Corta pra Londres, mesmo ano.
Ocorre que os gigolôs das gravadoras viram " naquilo " um grande negócio, que dispensava super produções e mega investimentos, bastando 3 ou 4 garotos putos nas calças, dois ou três acordes - e, claro, muito marquetim -, e ganhariam muito mais, gastando bem menos.
Quando o inglês Malcom Mclaren recrutou e agenciou os Sex Pistols, pouco se lixando para o fato de que Sid Vicious não sabia a diferença entre um contrabaixo e um tacape, não tinha em mente decretar a morte da rainha, contestar a política tributária e a truculência contra os proletários, ambas praticadas pela premiê britânica Margareth Tatcher; queria, na verdade, o que conseguiu: capitalizar a revolta alheia, com o que ganhou bastante dinheiro, este vindo dos discos e dos shows de seus pupilos, das roupas que vendia nas butiques que montou aproveitando a "moda” punk, de todos os lugares em que lhe foi possível faturar, bem como o fizeram gravadoras e, também, $inhá mídia.
Evidente que certas bandas (só para citar algumas, Buzzcocks, Undertones, The Clash) e alguns artistas de fato resistiram o quanto puderam, mas não o bastante para evitar que a massificação, uma vez mais, banalizando a arte, estupidificasse o público. Corta, corta!!
Hoje, quase 30 anos depois, não conseguindo domar a força do rap, cooptando-o, e sem conseguir acompanhar a versatilidade liqüidificadora da música eletrônica, a indú$tria do rock tenta, já com crises de abstinência de doleta$, fazer um raio cair novamente no mesmo lugar, produzindo, no mais das vezes, mauricinhos revoltados e junkies preguiçosos (daí só tocarem, e mal, dois acordes), que reagem ao ódio vigente no mundo com mais ódio, falando em lutar, mas se destruindo em álcool e drogas químicas, achando que "isso" é revolução. Não é.
Se o que predomina é ódio e destruição, a verdadeira revolução se dará pela construção e pelo amor - o qual nada tem a ver com essa coisa jeca de novela, mas com gestos e atos de cuidado e de respeito para com o meio e o resto do bando - e ambos só serão possíveis pela troca (não venda, não compra) de palavras e de idéias. Atitude é (aliás, será) isso. O resto é pose em capa de cds, revistas e em videoclipe, solução pra falta de assunto de $inhá mídia, e último, mas não menos deplorável, dar $obrevida a um moribundo: o 'negócio' rock 'n roll , que se sustenta qual uma religião, criando mitos, ritos, mártires (para citar um, mais recente, Kurt Cobain , que não deixam descansar em paz) e, dã e sorvete na testa, fanáticos.
De quando em vez, faturando menos do que deseja, a indú$tria do rock , com a parceria de $inhá mídia , se sai com perguntas cretinas do tipo " O Rock Morreu? ", de modo a mobilizar as "viúvas" do troço e alguns novos e futuros "orfãos", ambos obtusos. Claro está que se referem ao 'negócio' rock, que, francamente, se morrer, tipo foda-se e já vai tarde. Quanto ao gênero, com este ninguém precisa se preocupar, posto que, se legítimo, é arte, e a arte nunca morre, apenas se transmuta, revigorada por sangue novo, imune aos velhacos.
Arte pode ser tudo, até diversão, mas não pode, nunca, padronizar as modas e os modos; ao contrário, deve, sempre, subvertê-los. Na música, então, só no Brasil há, mais ou menos, 160 gêneros diferentes, que podem e devem ser misturados entre si e com tantos outros - inclusive com o rock - de outros países, diversificando as culturas, integrando as gentes, algo que com a rede ficou muito mais fácil, e que - salve, salve! - muitos já têm feito.
"Hey, ho, let´s go" . Pra frente é que se anda.
PS – Ouvi (e recomendo) o som de uma banda paulistana: KREPAX (é, o nome é inspirado no genial quadrinista milanês Crepax , criador, entre outras, da sensacional série com Valentina ).
Se quiser conferir, vai no sítio, clicando aqui.
Pirata Z é jornalista, escritor e zineiro, editor da Pirata Zine , publicação eletrônica com distribuição gratuita, mas apenas para leitores cadastrados. Para se cadastrar, basta mandar um imeio para diariopz@uaivip.com.br , ou através do seu blogue, www.pirataz.blog-se.com.br