Cadavers of Metal IV

12/03/2006 - Matriz

Bandas:

Eternal Torture, Lucyferia, Broken Spell, Absolute Disgrace, Perpetual Dusk, Nerwhen, Helloween Cover e Ansata

 

Por Alexandre Oliveira

Fotos por Luiz Romaniello (Eternal Torture) e Ayrton Ferreira (restantes)

 

Em sua quarta edição, o festival Cadavers of Metal novamente utilizou-se da mescla de estilos dentro do Metal, aliando bandas de som próprio a bandas cover, para atrair uma boa parcela de público – cerca de 350 pessoas –, atingindo um saldo final bastante satisfatório. Enquanto muita gente imaginou que a casa de shows escolhida – o tradicional Matriz – não comportaria bem o evento, tudo saiu da melhor maneira possível, com muita confraternização entre bandas e público e um dia inteiro repleto de atrações, agradando a vários gostos musicais.

 

Marcado para as 14h, o início não poderia se atrasar muito, por se tratar de um domingo e pela quantidade de bandas – oito ao todo. Às 14:40h, aproximadamente, o Eternal Torture iniciou sua apresentação, para um público já em número de regular para bom (crescendo bastante no decorrer das músicas), apresentando como principal novidade a ausência do agora ex-baixista Gustavo Leonhardt, que abandonou a banda por motivos pessoais poucos dias antes. Entretanto, ficou claro que, apesar do desfalque, a banda vem apresentando uma tremenda evolução sonora, e, como não tocava há alguns meses na capital mineira, fez um belo retorno executando faixas como a excelente Eternal Torture e Hell's Legion , essa última mais direta e brutal, apresentando um exímio Brutal Death Metal. Sem o baixo, as atenções ficaram para o belo trabalho dos guitarristas Bruno Avilis e Mauro “Bonebreaker”, que estão muito entrosados e produzindo riffs legitimamente intensos e bem estruturados. Mauro ganhou o destaque individual de presença de palco, passando muita energia para o público até mesmo nos intervalos das músicas. O vocalista Juliano Spiga foi outro a mostrar bastante evolução, atingindo guturais cada vez mais marcantes, mas o maior destaque acabou ficando com a técnica, precisão e variação do baterista André Pignolati. Uma banda com potencial para se tornar um dos maiores nomes do Death Metal mineiro. Show absolutamente condizente com essa afirmação.

 

Em seguida, foi a vez da banda Lucyferia subir ao palco. Apresentando covers de Gothic Metal – Nighwish, Tristania e Epica, por exemplo –, deixou a desejar, principalmente nos vocais, apesar do nítido esforço do conjunto. É preciso muito ensaio para que as versões saiam com um pouco mais de fidelidade às originais.

 

O festival teve outro ponto alto quando o Broken Spell iniciou seus corridos 35 minutos (tempo padrão para todas as bandas), e novamente uma nítida evolução – tanto individual quanto conjunta – pôde ser claramente percebida. A formação mostra-se muito entrosada, e chega a ser absurdo o fato da banda não ter lançado nenhum material desde 2002 – apenas a demo Broken Spell integra a discografia da banda, mas não representa a atual sonoridade do quarteto. Já está passando da hora de gravarem pelo menos um material de divulgação, pois a qualidade do conjunto mostra-se muito marcante ao vivo, em um som dificilmente classificável, mas que adentra em características do Thrash e do Heavy Metal. Músicas como I Take You Down (com o melhor refrão já criado pela banda) mostraram que o baterista Gustavo Carlo, recentemente integrado à banda, possui muita técnica e desenvoltura. Os vocais de Luiz Vitarelli estão ganhando cada dia mais variações, e se destacaram em Mechanicism , em que, além da postura de palco, Luiz intercalou partes menos forçadas no vocal (que, usualmente, é mais gritado). Já o guitarrista Spencer Chedid roubou a cena no cover de Burning Angel , do Arch Enemy, garantindo uma fidelidade incrível à música. A formação é completada com o baixista Thiago Martins, que cantou parte da faixa I Take You Down , mantendo a qualidade apresentada pelo Broken Spell em toda a apresentação.

 

Segunda e última banda de Death Metal do evento, coube ao Absolute Disgrace maltratar os tímpanos sensíveis ali presentes. Com um currículo já invejável em mãos – aberturas para Incantation, Behemoth, Krisiun e recentemente Morbid Angel, além da participação em importantes festivais underground –, o Absolute é o tipo de banda perseverante, que pouco a pouco vai conquistando cada vez mais espaço por onde passa. Por isso, a apresentação da banda ganhou muita importância nesse evento, onde tiveram a oportunidade de tocar para um público mais abrangente, levando sua pútrida sonoridade a novas pessoas. Infelizmente, tocar Brutal Death Metal da maneira com que a banda faz – riffs na velocidade da luz, com trocentos milhões de notas por segundo –, demanda muita técnica e, ao vivo, uma combinação de resultados – como aparelhagem, técnico de som, acústica da casa, som de retorno, etc. para que o público consiga distinguir e entender a complexidade de seu som. Apesar de ter soado embolado, a banda conseguiu boa aceitação, em petardos como Cannibal Pompoarism (com um momento histórico, em que a música subitamente pára e um vocal gutural “declama”, em cerca de três segundos, a palavra “buceta”, dando então retorno à música. Genial!). Grandmas Molestor , Memories Of A Dismembered Cadaver e Menstruation Sucker representaram, além de tudo, as últimas faixas executadas pelo baixista Gustavo Oliveira na banda. Após ser saudado pela banda e público, o agora ex-integrante deu lugar ao novo membro Bernardo Gosaric (ex-Impurity e Agaurez). Foi com Bernardo que a banda executou Dominate , do Morbid Angel, e a destaque Condemned , que acompanha o Absolute Disgrace desde sua única demo, homônima à música. Outras duas composições fecharam a apresentação, que, apesar de ter sido prejudicada pelo som embolado, mostrou uma banda muito veloz e talentosa ao vivo.

 

Única banda de Black Metal da noite, o Perpetual Dusk é outro representante de peso do underground mineiro, que vem construindo um forte currículo nos últimos anos. Além de apresentações ao lado de Dark Funeral, Averse Sefira, Marduk e Enthroned, o álbum de estréia Supreme Black Victory vem alcançando altas notas na mídia e ótima aceitação do público. Já era de se esperar uma boa apresentação, e as expectativas foram comprovadas em cinco músicas de grande qualidade. Com a boa aparelhagem permitindo uma audição adequada de seus instrumentos, os teclados de Renata Brandi mostraram ser de suma importância para a complexidade sonora da banda, agregando linhas sombrias e atmosféricas à sonoridade ríspida e brutal dos riffs, obra da dupla Christian Leonhardt e Rafael Tamietti, esse último não deixando esconder a satisfação de tocar para casa cheia, com o público reagindo muito bem ao som da banda. Em Beyond The Ethereal Spheres Of Nocturnal Domain , música que acompanha a banda desde sua segunda demo, Incarnated Darkness , de 2003, veio o ponto mais alto do show, com o público cantando a parte com vocal limpo/épico, em um momento muito emocionante para a banda. Show muito competente.

 

De volta ao Gothic Metal, o festival teve como atração a banda Nerwhen , cover de nomes como Tristania, After Forever e Cradle of Filth, que teve como destaque a inclusão de um violino em sua sonoridade. Apesar da movimentação da vocalista Paula, a banda realizou um show morno, que ainda mostrou duas músicas próprias, em uma linha mais cadenciada, mas sem empolgar muito. Falta mais presença de palco à banda, principalmente à baixista Érika Ruggio, que esteve muito estática durante toda a apresentação. Ficaram devendo.

 

Em seguida foi a vez do Helloween Cover , que teria a responsabilidade de fazer bonito, afinal de contas ali estavam vários fãs da banda homenageada. Não empolgaram, obtiveram uma aceitação baixa do público e ainda deixaram muito a desejar, principalmente nos vocais. Saldo extremamente negativo.

 

Última banda da noite, coube ao Ansata retomar a boa forma do festival. Banda nova, realizando seu primeiro show, ainda era uma incógnita para os presentes, a não ser pelo fato dos guitarristas Marco Túlio (Tellurian) e Marco Aurélio (ex-Annunciatta) já terem integrado bandas que marcaram presença em alguns eventos de Belo Horizonte, como na própria edição anterior do festival, com as bandas supracitadas. A faixa de abertura, Niffleheimelegy , centralizou as atenções na vocalista/tecladista Aline, que, aos poucos, ia agradando, mostrando boas linhas vocais. No instrumental, riffs mais pesados e rápidos, características também encontradas no Tellurian, outra banda do guitarrista Marco Túlio. Em Implicitdawn , segunda música, o baterista Danilo utilizou-se de muita brutalidade em algumas passagens, com metrancas bem incorporadas à música, que se mostrou toda bem extrema. Um cover de Burning Angel (sim, ela de novo!), do Arch Enemy, foi muito saudado pelo público, antes mesmo de sua execução, ainda mais pela expectativa de se ouvir a vocalista cantando de forma mais extrema. E foi, com vocal rasgado, que se deu a execução da música, que caiu muito bem no gosto do público, mostrando versatilidade da vocalista Aline. A música The Eclipse Of Our Eagles , que fechou o show, mostrou ótimos teclados, com todos os integrantes mostrando boa performance, e presença de palco garantida pelo baixista Wellington, quem mais agitava no palco. Os gritos de “Mais um! Mais um! Mais um!” não foram suficientes para que a banda pudesse tocar uma saideira, pois o horário já estava estourado, mas serviu para medir o grau de aceitação do público. A pergunta que não quis se calar foi o porquê da vocalista Aline não mesclar vocais rasgados também nas composições próprias – talvez explicado pelo fato do guitarrista Marco Aurélio já se encarregar de backing vocals rasgados/guturais nas músicas –, mas a receptividade do público foi tão boa quando isso ocorreu (no cover), que é algo a ser seriamente pensado para as próximas apresentações. Uma grata surpresa.

 

A noite foi, então, finalizada, com um saldo extremamente positivo. Coincidência ou não, as cinco bandas de música própria realizaram convincentes apresentações, o que não se repetiu nas bandas cover. Aliás, já está passando da hora de se acabar com a necessidade de se colocar bandas cover em shows apenas para atrair mais público. Existem, claro, as boas bandas cover, que trabalham com seriedade e levam um espetáculo à parte em seus shows, mas muitas outras ganham espaço simplesmente por utilizar-se se músicas de outros artistas consagrados para chamar público e conquistar uma rápida audiência. Excetuando-se esse problema, o festival Cadavers of Metal IV foi um grande sucesso. Agradecimentos ao produtor Márcio Siqueira (Annihilation Productions) pelas adequadas condições de trabalho no evento.

 


resenha e fotos: Alexandre Bernardes de Oliveira


 

 

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