
AS BOAS VIBRAÇÕES DA SURF MUSIC
por Marcelo DolabelaA definição mais usual de um estilo ou ritmo musical é dizer que, "na verdade, tal estilo ou ritmo não existe, é apenas um modo de tocar qualquer canção". Isso é óbvio. Basta um exemplo, os punks, vez ou outra, relêem as canções mais díspares: o grupo Inocentes, o samba "Pesadelo", de Maurício Tapajós & Paulo César Pinheiro; o Patrulha 666, a new-sertaneja "Pense em mim"; e o Garotos Podres, o hino comunista "A Internacional".
Com a Surf Music não é diferente. Há um "modo de fazer" que rege toda a estrutura do estilo. O que faz qualquer canção poder ser adaptada aos modos-surfies. Como a mariachi "Cielito lindo" (no Brasil, a "tradicional": "Está chegando a hora": "ai, ai, ai, ai, está chegando a hora / o dia já vem raiando, meu bem / eu tenho de ir embora...") que o grupo The Rancheros transformou no hit-surfie "Little Linda". O bolerão "Perfidia" é outro hit engolido pelo estilo.
Mas afinal qual é o modus operandi da surf music? Quase o mesmo dos outros sub-estilos do pop rock de fins da década de 1950 e início da década de 1960. Isto é, a estrutura clássica: guitarra-solo, guitarra-base, contrabaixo e bateria. No caso da Surf Music, às vezes, temos uma terceira guitarra que ora pode solar, ora reforçar a base; um saxofone e/ou um teclado. Mas a base está na guitarra-solo (ou nas guitarras-solos).
Há duas modalidades de Surf Music:
(1) a instrumental – representada por Dick Dale ("O pai do surf rock") – a guitarra-solo faz o papel misto de "cantor" e "guitarrista". O solo "chora", "sussurra", "cantarola" e/ou "grita" a melodia "vocal" da música. A partir da técnica criada por Dale "no uso do efeito trêmulo (reverb) dos instrumentos de corda do Oriente Médio, como o bandolim grego, que consiste em sustentar notas tocando as cordas para cima e para baixo" (SHUKER, Roy. "Vocabulário de música pop". São Paulo: Hedra, 1999.). Os demais instrumentos servem de "cama". E
(2) a cantada (representada pelos Beach Boys) – com sofisticados jogos vocais. E que traz os temas: carro (motores & pegas) – garota (paquera & sexo) & praia (sol e surf), não necessariamente nessa ordem.
A moda durou pouco – 1961-1965 – mas tem grande peso na história do Rock And Roll. Agitou, inicialmente, o sul da Califórnia e se espalhou mundo afora – Austrália, Nova Zelândia, Havaí, golfo do México e Brasil. Os principais representantes são, além de Dick Dale & The Tones: The Chantays; Jan & Dean; Milt Rogers; o grupo fantasma The Shadows; The Surfaris; The Rancheros; The Rumblers; The Trashmen e The Ventures. E, obviamente, The Beach Boys, liderado pelo "gênio" pop Brian Wilson.
No Brasil, a moda surfie chegou quase que simultaneamente à explosão nos EUA. Espremidos entre a primeira geração do Pop Rock brasileiro – Tony Campello (no repertório: "Pertinho do mar ("South of the border"), Betinho ("Twist watch" e "Apache"); Ronnie Cord ("Brotinho difícil") e Sérgio Murilo ("Brotinho de biquíni") – e a futura Jovem Guarda – Roberto Carlos ("O broto do jacaré" – "jacaré" = "pranchonas de madeira"), Erasmo Carlos ("Jacaré") e Wanderléa ("Exército do Surf (L'esercit del Surf)" –, a nossa turma surfou entre esses dois instantes. Pegando carona no repertório e trejeitos dos primeiros e antecipando (e se prolongando na) a explosão da turma do Iê-Iê-Iê.
A Surf Music brasileira, com raras exceções, foi essencialmente instrumental. Seguindo as lições de Dick Dale no uso do reverb.
Por aqui, a Surf Music se confundiu, se aproveitou e se associou, muitas vezes, com o Twist, o Hully-Gully e com o sub-subgênero pop Letkiss, uma mistura dos três estilos.
Em tempo: há, no mercado brasileiro, duas boas antologias para quem quer conhecer a Surf Music: "The revenge of the surf instrumentais", da MCA, com: The Surfaris, The Ventures, The Rumblers, Dick Dale & The Del Tones, Milt Rogers, The Rancheros e The hantays. E a "History of rock – Surf Music", da Ouver Entertainment, com: The Beach Boys, The Trashmen, The Ventures, Jan & Dean, The Tornados, entre outros.