
Outras aves no tráfico
Assisti ao documentário "Falcão - Os Meninos no Tráfico", produzido e dirigido por MV Bill e Celso Athayde, e, qual milhões, também fiquei meio 'pã', mas menos com o conteúdo do filme e mais com a perplexidade que, de domingo para cá, $inhá mídia e neoconscientes têm demonstrado com a revelação de que vida de guri favelado não é divertida como exibida e vista em "Cidade dos Homens".
O documentário foi extremamente bem feito, com seus realizadores limitando-se ao registro dos fatos, fazendo destes os "protagonistas", não os meninos, tampouco eles, diretores (como sempre faz em seus filmes o Michael Moore, queridinho de uma pá de neoconscientes).
Já ouvi uns e outras pelaí criticarem o MV Bill por sua aproximação com a rede globo , o que é obtusidade travestida de rebeldia, pois a tevê é uma concessionária pública - logo, nossa também -, então deve, sim, ser ocupada também pelas gentes, mas, como dá trabalho, quem se habilita? Vai um lá, faz acontecer e, dos sofás, sentam-lhe o pau. Gente dodói, que deveria sair dos sofás para os divãs, ou, tanto melhor, pra lavoura, que ócio mata - de inveja, inclusive.
Além da obtusidade, essa reação negativa ao cara embute, ainda, ignorância. Pouco depois daquela 1ª vez em que se tentou exibir esse documentário, a globo processou Bill, que, a depender do modelar william waack, deveria estar no xilindró; portanto, tinha que ser na globo mesmo, ainda que se possa deduzir o seu intere$$e na coisa.
O pior em $inha mídia não é só o que ela mostra, mas, principalmente, o que ela omite. Galinhas, quando põem ovos, promovem um barulho que faz aquela dona da banda calypso parecer uma asmática em crise; já patas, embora botem ovos bem maiores, ficam em silêncio. $inhá, em seus abaitolás midiáticos, porta-se como um híbrido de ambas. Se liga no plá.
Quando é pra denunciar as conseqüências de um fato, é de uma competência indiscutível (tem equipamentos e pessoal bons o bastante para tal), e aí age qual uma galinha, anunciando e reportando ad nauseam os seus "ovinhos" - de ouro, uma vez que atraem audiência e, logo, mais e maiores anunciantes. Porém, se há conseqüência, tem de haver uma causa, estamos, creio, combinados. Como as causas são sempre bem maiores que as conseqüências, aí é hora de agir como a pata, mantendo o bico bem fechado, ou mesmo travando o roscófi, que é para o "ovão", em não aparecendo, não lhe doer - e aí, nesta omissão, é que está o busílis.
Bill e Athayde fizeram um documentário escancarando uma das conseqüências do tráfico, e feita está a parte que lhes cabe não só como artistas, mas como cidadãos - e olhe que ainda tocam em Cidade de Deus (o bairro, bem entendido) significativos projetos esportivos, sociais e culturais, mas isso, que chato, não dá audiência -, e, agora sim, fim de papo. $inhá, porém, em que se pese seu interesse, também acertou em veicular a denúncia, provocando - mesmo que por apenas 15 dias, que, segundo o Ivan Lessa , é o que dura a indignação do brasileiro - uma reflexão e um plá, mas caberia a ela, também e principalmente, por justiça aos fatos, ou, no mínimo, em respeito às famílias das vítimas produzidas pelas conseqüências da 'coisa', se prestar também à denúncia, com igual estardalhaço, das causas e dos causadores do tráfico.
O saudoso Bezerra da Silva já cantava que " navio não sobe morro ". Se você não pertence à patotinha de patetas que gostavam dele por achá-lo "engraçado", sacou o que, de fato, mas com sarcasmo, o mestre falou e disse. Alguém com os miolos não lobotomizados por $inhá é capaz de acreditar que aqueles guris, ou até os "chefões" do troço são responsáveis pela produção e ou importação do bagulho, pela sua chegada e desembarque nos portos, mais o transporte em caminhões para a desova da carganos morros, e tudo assim, numa boa, sem problemas? Se sim, bem, clica aqui, divirta-se, enquanto, por aqui, a gente se concentra naqueles que transformam galinhas em patas, "falcões" em alimento: os urubu$ do tráfico.
No documentário, os "falcões" limitaram-se a citar apenas uma parte do bando de urubu$: a polícia, e, mesmo assim, o fizeram de forma generalizada, sem especificar, é claro, nomes, o que acarretaria conseqüências trágicas não só aos canas - e, mesmo, pela posição que os moleques ocupam na hierarquia do tráfico, não creio que saibam muito mais além disso. Só que, tempos atrás, quando preso numa floresta colombiana, fernandinho beira-mar, você se lembra, para garantir a sua segurança (mais alguns muitos privilégios na cadeia), ameaçou, em rede nacional, pela mesma emissora que veiculou " Falcão ...", entregar uma certa "lista" com nomes muito mais importantes que o dele no negócio.
A denúncia dos moleques embute, naturalmente, outros urubu$: os do Estado, seja em nível municipal, estadual e ou federal; afinal, a quem respondem as polícias civil e militar? A ameaça de beira-mar, no entanto, sugere outros urubu$, e não é difícil imaginar que estes sejam políticos outros (no caso, cúmplices não só por omissão - como no caso das polícias -, mas também por comi$$ão), juízes (bem, no caso destes, até $inhá revelou quanto 1 deles, Rocha Matos, de São Paulo, cobrava por uma sentença de liberdade pros pseudos "chefões" do tráfico, já que os legítimos chefões nunca aparecem, são só sugeridos), empresários e outros mais que participam diretamente do banquete com a carniça dos "falcões" e pseudos "chefões" - e, claro, com a carniça, também, das vítimas destes, muitas das quais, um dia, já dividiram com você um muro, uma mesa de bar, uma ceia de natal.
Há, ainda, os urubu$ com participação indireta ( ma non troppo ) nesse selvagem repasto, a menos, é claro, que não consigamos enxergar que o que difere, apenas por um exemplo, um banqueiro que declara ter ganho 2 bilhões de doletas num ano, limpando os bolsos dos outros através de tarifas e juros, e só e fim, de um garoto que fatura 350 dinheiros ao mês vendendo bagulho é só mesmo a publicidade e os "cadernos" em que um e outro aparecem nos jornais - além, claro, da renda e da "relatividade" na aplicação das leis para ambos...
Claro está, portanto, que $inhá jamais irá "rifar" quem, às canetadas e ou com anúncios, lhe mantém ativa (e, conseqüentemente, na dolce vita), e seguirá na conveniência daquela 'mutação' em que ora é galinha e ora, pata, desconsiderando a ambição que uma daquelas crianças do documentário manifestou (e, batata, não está sozinha nessa), que não é a de ser galã de novela, Apolo de anúncio, cantor de música vagabunda, ou qualquer outro dos "modelos" de sucesso vendidos em seus abaitolás. Não, nada disso. O moleque quer ser é bandido (e, ó, por mais vorazes os urubu$, por mais dissimuladas as galinhas e as patas, por mais vistosas as peruas e os pavões que adoram ostentar o seu "sucesso" nos viveiros midiáticos, acho difícil que consigam convencê-lo, o moleque, do contrário - especialmente com um cano enfiado no bico, o que dificulta em muito o pio.
O que fazer? Por vezes, o não fazer é o começo da solução. Com essa história toda aí, com essas imposturas todas, com o festival de clichês que - Veríssimo fora - intelectuais, celebridades, sociólogos de varandas e outros mais vomitaram, uma coisa se faz, mais do que necessária, vital - e, detalhe, dá muito menos trabalho que tentar ocupar espaços que são nossos, como a tevê: simplesmente ignorar tudo e todos que representam esse tipo de comunicação - seja no jornalismo, no cinema, na música etc -, e não por preconceito, mas pelo nada simples fato de que, tal como é, não funciona.
Assim como Bill e Athayde, em todos os universos da comunicação, há muitos e tantas pelaí , sem diplomas, sem as leis de incentivo, sem favores político-econômicos, abrindo a muque outros caminhos. Erram, por certo, mas não por conveniência ou, pior, conivência, único caso em que, subvertendo o provérbio popular, errar é desumano.
Pirata Z é zineiro, escritor e dejota.
imeio: diariopz@uaivip.com.br
blogue: www.pirataz.blog-se.com.br