
V de Vingança
Quando levaram a coitada e seus filhos em carros separados, não fizemos nada.
A narração nos situa em 8 de março de 1998, futuro próximo. Vemos um banco projetando sua silhueta contra a cortina de um palco, dentro do círculo de luz direcionado por um holofote. A dançarina faz sua entrada, a perna nua jogada para frente, dobrada, a ponta do pé tocando a base do banco, acompanhada pelo fio do microfone. Um close no rosto, olhos semicerrados, a expressão sugerindo a sensualidade na voz. Eu não tenho afinidade política... A teoria me aborrece! Quando o assunto é de Estado, nada me aquece!
A típica cena da cantora de cabaré, dançando e cantando entre um e outro gracejo para os homens da platéia, famintos. O clichê é utilizado aqui para falar de uma sociedade onde a ideologia fascista é destilada em meio a grosseiras metáforas de natureza sexual, numa alusão à amálgama de autoritarismo e permissividade tão cara às ditaduras. O ambiente é o bar londrino Kitty Kat Keller, na Inglaterra pós-Terceira Guerra imaginada pelo roteirista Alan Moore e materializada no traço do desenhista David Lloyd, no momento em que a ilha, poupada do aniquilamento nuclear, é governada pelo regime fascista imposto pela Chama Nórdica, uma coalizão de forças políticas e empresariais surgida em meio às ruínas do conflito.
Uma vez no poder, o partido promove o silenciamento das oposições e a perseguição de minorias, instituindo um regime de força baseado nas idéias de Estado forte e supremacia racial, montando todo um sistema de vigilância e controle cujo cérebro é um computador chamado Destino, em frente ao qual se senta o líder, o homem na posição mais alta da hierarquia, o que não o impede de transferir patologicamente para a máquina seu anseio desesperado de ser mais amado que temido.
O eixo principal da trama é a vingança traçada pelo auto-nomeado V, personagem dotado de profunda erudição e perigosa inteligência, que foge de um campo de concentração para se estabelecer enquanto maior inimigo do regime. Oculto atrás de uma máscara sempre sorridente, o terrorista persegue expoentes do partido e sabota a máquina governamental, enquanto declama trechos da literatura universal. Sua indumentária faz referência a Guy Fawkes, que em 5 de novembro de 1603 tentou explodir as casas do parlamento britânico e cuja imagem ainda hoje é queimada em fogueiras no aniversário da ocasião. Sua base de operações, a Galeria Sombria, instalada nos subterrâneos abandonados do sistema metroviário, além de aludir ao clássico Fanstasma da Ópera, bem no estilo de Moore de enriquecer o texto com citações, talvez possa ser lida como uma metáfora do inconsciente. Lá, V guarda um rico acervo de livros, discos, pinturas e vídeos, da arte palaciana ao contemporâneo rock'n'roll, todas peças proscritas pela censura.
V de Vingança é um discurso sobre anarquia e autoritarismo. Sobre governo e deixar-se governar. Sobre as deformações sociais e psicológicas provocadas pela manutenção forçada de um estado de coisas antinatural. Alguns personagens são emblemáticos, a começar pelo protagonista, encarnação da arte e da anarquia. Destacamos o líder, a face mais dura do regime, no íntimo uma sensibilidade exacerbada e carente; o insensível carrasco de seres humanos apegado à sua coleção de bonecas; a mulher que seduz e manipula o poder masculino, exercendo a sombra da sociedade machista; o bispo pedófilo; o policial e o contraventor que flertam entre si, numa aliança da repressão e do crime contra a liberdade. São produtos de um todo adoecido que se reproduz em modelos pervertidos de família, pessoa e relacionamento. Todos condenados, curvados e deformados pela pequenez de suas celas, o peso de suas correntes, a injustiça de suas sentenças..., como diria V.
Alan Moore nos coloca também a questão da libertação pessoal, da dissolução de bloqueios e crenças internas que trabalham em cumplicidade com os mecanismos externos do poder, roubando ao ser humano alienado o pleno exercício de si mesmo. Ele faz uma análise profunda da dinâmica do autoritarismo em seus vários níveis e formas, rica em citações que evocam por sua vez todo o conteúdo que lhes é associado. Com sua densa carga de informações e discursos, magistralmente administrada pelo roteirista, V de Vingança pode ser apreciada em múltiplas dimensões. Desde a realidade psicológica e existencial até o manifesto político, nada foi negligenciado, tudo converge para a palavra final.
Moore construiu o contexto político de V de Vingança baseando-se em tendências da época em que o roteiro estava sendo concebido, tais como a corrida armamentista da Guerra Fria e o recrudescimento de políticas retrógradas no governo de Sua Majestade, como as que então se propunham atacar minorias étnicas e sexuais, comentadas no ácido editorial em que se diz pessimista quanto ao futuro de seu país e se confessa ingênuo pelo fato de haver acreditado que seria preciso algo tão radical quanto uma hecatombe nuclear para lançar a Inglaterra ao fascismo, retratando-se também pelo que considera uma falha de informação, qual seja, a suposição de que um conflito dessa natureza e magnitude poderia deixar sobreviventes.
Alan Moore é também o autor da série Watchmen (Vigilantes), em parceria com o desenhista David Gibbons, de igual complexidade e também assombrada pelo fantasma do holocausto nuclear, em que relativiza a figura do super-herói e trabalha questões políticas e filosóficas desconcertantes e por vezes terríveis. Quem vigia os vigilantes?
Esperemos que V de Vingança tenha melhor destino nas telas do cinema do que teve o mago trapaceiro Jonh Constantine, protagonista da série Hellblazer, reduzido a herói norte-americano de filme de ação. De qualquer forma, independente do que for feito no filme, V de Vingança sempre será uma das obras-primas dos quadrinhos.